Publicado por: Kaya Barros em: 03/09/2007
Quando eu era menino, mamãe me aconselhava a tomar cuidado com os meus amigos. Depois, quando cresci mais, papai repetiu para mim o surrado provérbio: “Dize-me com quem andas e te direi quem és”. Não consigo avaliar se consegui obedecê-los, mas, por outros motivos, troco de amigos.
Cheguei à meia idade bem decepcionado com a palavra Amizade. Como reluto para não tornar-me cético, busco andar ao lado de verdadeiros amigos; porém, isso não é fácil.
Mas mesmo com tantas decepções insisto em garimpar bons amigos. Quero ser amigo de quem valorize a lealdade. Mesmo depois que ditadura militar soltou meu pai, o estigma de “subversivo” grudou-se nele. Um dia papai me contou, com lágrimas nos olhos, que seus antigos colegas da Aeronáutica desciam a calçada para não se verem obrigados a lhe cumprimentarem publicamente. Ainda guardo esse trauma e, sinceramente, não consigo lidar com amizades que só se mantêm por causa de conveniências, qualquer uma. Quero acreditar em amizades que não se intimidam com censuras, que não retrocedem diante do perigo e que não abandonam na hora do apedrejamento. Amigos não desertam.
Quero ser amigo de quem eu não precise me proteger e que não tenha medo de mim. Não creio em companheirismos repletos de suspeitas. Os grandes amigos são vulneráveis. Conversam sem se policiar, rasgam a alma e sabem que seus segredos jamais serão lançados em rosto ou expostos publicamente.
Quero ser amigo de quem não se melindra facilmente. Por mais que tente, continuo tosco; magôo com meus silêncios, com minha introspecção e, muitas vezes, com meus comentários ácidos e impensados. Portanto, preciso de amigos que tolerem minhas heresias, minhas hesitações e meus pecados. Busco amizades que agüentem o baque das minhas inadequações; que sejam teimosos.
Quero ser amigo e não um mero cúmplice de vocação. Já preguei em algumas igrejas que, depois que o pastor me deixou na calçada do aeroporto, nunca mais tive notícias dele ou de sua igreja. Não vou mais colocar meu nome em conferências e congressos que me dêem prestígio ou que eu só sirva para reforçar a programação.
Não tolero manifestações artificiais de coleguismo restritas a cultos festivos. Para mim, nada é mais ridículo do que proclamar que somos uma “só família” em Cristo, para depois sair criticando uns aos outros com farpas venenosas.
Acredito que os verdadeiros amigos têm o que repartir e que sentem necessidade de expressar seus sentimentos, suas dúvidas e principalmente seus medos e desesperos. Amizades superficiais são mais danosas para o espírito do que inimizades explícitas.
Quero ser amigo de quem não é muito certinho. Não tolero conviver com quem nunca tropeça nos próprios cadarços.
Quero terminar meus dias e poder dizer que, mesmo descrendo das ideologias, dos sistemas econômicos e das instituições religiosas, cri em verdadeiras amizades porque tive bons amigos.
Até porque Deus não só ama, como também nos chamou de amigos. [Ricardo Gondim]
Quero ser amigo de quem não contenta em re-encaminhar mensagens re-encaminhadas de power-point. Também não gosto de cartões de aniversário com frases prontas e com obviedades.
Vez por outra, gosto de relaxar, rir do passado, sonhar maluquices para o futuro e conversar trivialidades. Quero amigos que se deliciem em ouvir uma mesma música duas vezes para perceber a riqueza da letra; de comentar o filme que acabaram de assistir e o último livro que leram. Como é bom chorar com poesia!
Para além da amizade na familia, não tenho amigos. Não soube ser…não soube talvez conservá-los, valho pouco. Não consegui no entanto conter esta vontade de vos dizer que sinto um vazio enorme no campo da amizade, queria dar e receber também. Amizade dessa que nos fala, sabendo que num ponto qualquer há uma pessoa de quem se é amigo sem condicionalismos.
Assim despido de qualquer capa. Eu ainda acredito que esse tipo de amizade existe, mas achei sempre que nunca poderia acontecer comigo porque tenho muitas limitações.
Mas ás vezes há aquela luz mais forte, que me diz, “vai por aí”
Natividade
Olá Ricardo.
Concordo com o que escreveste acerca da amizade. De facto o mais dificil é conseguir encontrar pessoas com quem nos sintamos realmente à vontade para sermos quem somos. Aquelas pessoas com quem não precisamos de representar uma qualquer peça de teatro daquilo que não somos. Como disseste e bem, pessoas que tolerem ou compreendam os nossos silêncios. Pessoas que entendam que não é por ter sempre assunto que podemos ser amigos.
Já agora visita o meu blog.
Cumprimentos
21/09/2007 às 5:00 pm
Ricardo Gondim escreveu uma das “crônicas” mais lindas sobre a busca da amizade.
Pessoalmente, é como se ele conhece exatamente cada detalhe do que penso sobre o que significa ser um verdadeiro amigo.
Gondim parece sentir no corpo os grandes anseios do desesperado e confuso homem pós-moderno.
Um exemplo para quem deseja crescer espiritualmente!